Chá das cinco

Chave roda, portão de ferro bate com força. Chave roda, portão de ferro bate com força. Chave roda, porta de madeira bate com força. 

Noite sim, noite sim, todos nós, os que vivemos no primeiro, segundo e terceiro andar, ouvimos as três portas a baterem, as duas de ferro e uma de madeira. Às chaves dele, a quem os putos do prédio chamam o Cuca, ficam quase sempre por dar seis voltas, as que deveriam trancá-las.

Quatro e pouco da manhã.

Só depois de o cheiro da noite dele chegar à sala ou, nos dias piores, ao quarto, e se espalhar em incómodo tornando tudo um desconforto, é que ela se levanta para ir trancar as portas esquecidas. 

A depender da violência da noite, encontramo-nos no corredor.

Nos dias em que não acordo por volta das quatro da manhã, tenho medo de ter adormecido em mim aquilo que sempre acreditei ser o errado. Vejo-me cercada de um irrealismo que continua a inspirar mentiras para estrangeiros e poemas para nacionais. Já ninguém acredita na realidade. Ninguém lhe liga.

Oiço o barulho dos chinelos dela e levanto-me da cama.  

Conheço-lhe o som da tristeza pelo arrastar dos chinelos no chão do corredor do nosso prédio, quando a verticalidade dela desliza exausta parede abaixo e as suas costas formam a curva do cansaço. 

Ligo a chaleira e ela sabe que acordei e que chego daqui a pouco. Já separei as chaves das minhas três portas para não ter um molho barulhento e abro cada uma delas com a destreza e silêncio de um gatuno profissional.

Nas noites em que não temos luz na rua, às quatro e meia da manhã senta-se connosco o amanhecer naquele corredor aberto para o bairro. Dou-lhe a mão sem lhe dizer nada. Falarmos sobre o que aconteceu depende da força com que ela aperta a minha mão. Quando é com força, fico em silêncio - por ela.

Levanto-a do chão do corredor e trago-a para o meu lado do prédio, trancando a minha primeira porta de ferro, com medo que o Cuca acorde e venha atrás dela. Tenho dois banquinhos ao lado do meu vaso de hortelã.

Em muitos desses amanheceres pintados de roxo, ela responde ao meu “separa-te” com um “as coisas não são assim”, congestionada pelo medo. Pouco depois ouvimos um ronco ridículo vindo do apartamento dela e brindamos com o nosso chá. Por hoje, o perigo adormeceu.

Nas manhãs em que ele lhe grita e lhe bate, eu acordo o prédio todo, apartamento a apartamento – os nove andares. Bato também, e sempre, naquelas portas que sei que nunca se abrem, para que sintam o incómodo da sua indiferença. Da minha cama, nessas noites, quem dorme comigo chama a polícia. Ele nunca saiu da nossa casa para ajudar, para testemunhar - já eu vou sempre à esquadra com ela. Somos “as de sempre”.

Na noite em que ele lhe bateu até ela desmaiar, ele mexeu-se na cama mais do que o normal. Foi a primeira vez que passou do nosso vaso de hortelã, depois de me ouvir gritar com a polícia. Detida por desrespeito à autoridade, “estás a meter-te onde não és chamada”. Só que eu fui - por ela.

“Ainda te queres separar? Tu tens uma sorte do caraças, vives com um gajo calmo, que nem bebe, e andas com esses filmes que te vais embora”, disse-me ela para mudar a conversa. “Qual é a diferença entre um cabrão que bate e outro que não defende quem leva na boca? Não estamos aqui as duas às cinco da manhã, Raquel?”, perguntei-lhe.

Na nossa última madrugada ela disse-me que já tinha comprado bilhete para o Huambo. “Vou-me embora”. Abracei-a e disse-lhe que não permitia que mais ninguém a fosse levar ao aeroporto na manhã seguinte. “É o nosso último chá neste corredor”.

***

A polícia tinha chegado havia uma hora. Nessa noite todo o prédio saiu depois de ouvir o tiro, mas ele prendeu-me na nossa cama com toda a força, impedindo-me de a ir defender.

Na madrugada em que ele a matou, a polícia levou-o para a esquadra pela primeira vez. Quando lhe passou a bebedeira chorou e disse não se lembrar de nada.  Trataram-no como um viúvo legítimo - sóbrio.

O tiro chegou à cabeça dela cinco minutos depois da primeira porta de ferro da casa deles bater. Faltavam 20 minutos para o meu despertador tocar para a levar ao aeroporto. Todas as portas foram trancadas por ele.

A tenda preta ao lado dos geradores do prédio, o buffet, os patos nas escadas e a vizinhança cronicamente surda marcaram todos presença no óbito.  Não fui. 

Até hoje o cheiro a hortelã me dá vómitos.

 

Foto: © clementina

 

Lara Longleluanda, angola